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Alexandre Leitão – Por um paisagismo mais sustentável

Alexandre Leitão Santos é graduado e mestre em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP). Professor no Centro Universitário Adventista de São Paulo e sócio-diretor do escritório Gabinete Urbano, localizado em Campinas (SP) e voltado ao desenvolvimento sustentável da construção e das cidades, o arquiteto conversou com a Construir Nordeste sobre o cenário do paisagismo urbano no país. Confira a entrevista completa:

 

1 – O que é de fato o paisagismo urbanístico? Qual o conceito trazido com o paisagismo urbanístico?

Imagino que possamos entender que o paisagismo urbanístico é aquele que diz respeito à escala da cidade, fora do lote. Em geral podemos encará-lo como o design de paisagem dos espaços públicos ou de uso comum. Nesta categoria devem se encontrar os projetos de parques, praças e arborização urbana, por exemplo. O cliente é quase sempre o poder público, mas nada impede que seja do setor privado.

 

2 – Como se caracteriza o paisagismo urbanístico? Como se pode aplicar o paisagismo sustentável em espaços públicos, como praças, áreas de lazer, ruas, sistema viário e outros ambientes de convivência?

Se formos analisar os primeiros projetos de desenho da paisagem urbana, estes estavam imediatamente relacionados ao aformoseamento das cidades, especialmente na virada do Século XIX para o XX. Em alguns casos, se relacionavam com os planos sanitaristas, onde os parques e praças se apresentavam como respiros nas cidades e o hábito de passear nos jardins passava a se fazer pela saúde própria.

Neste período, no entanto, os jardins públicos ainda seguiam a tendência dos jardins franceses e ingleses, pouco adequados à nossa realidade. A adoção das espécies nativas no paisagismo surge, em ampla escala, apenas com o advento do movimento modernista na primeira metade do Século XX. É por causa de nomes como Mina Klabin e Roberto Burle Marx que espécies tropicais passam a ser tão valorizadas em seu uso urbano. É com o modernismo, também, que se passa a mesclar paisagismo e infraestrutura urbana. O Aterro do Flamengo, por exemplo, tinha a função de ligar a Zona Sul do Rio de Janeiro ao Centro da cidade através de pistas expressas. Para isso se fez o desmonte do Morro de Santo Antônio e, com sua terra, a execução de um imenso aterro que abrigaria as pistas. Junto às pistas e sobre o aterro foi executado um dos maiores parques urbanos existentes, de autoria de Burle Marx. Este caso mostra bem o pensamento do período, de que a natureza poderia ser subjugada e o território remodelado a partir da técnica.

Apenas na década de 1970 os movimentos ecologistas ganharam força e visibilidade, colocando a preservação ambiental numa perspectiva mais ampla. É aí que surgem os projetos com viés sustentável. Um dos meus exemplos preferidos é o Parque Ecológico do Tietê, que previa um parque de mais de cem quilômetros de extensão ao longo do Rio Tietê, na metrópole paulistana. A ideia deste parque revisava a forma de ocupação inicial do rio, com autopistas o aprisionando. Como se trata de um rio com um regime de cheias regular, a cidade sofria com os alagamentos periódicos, já que o espaço destas cheias se tornou área construída. A nova solução adotada seria afastar as pistas do rio e, entre as vias e o rio, construir uma imensa área verde. Esta área, além de garantir lazer à população, permitiria que o rio seguisse com seu regime de águas sem conflito com o cotidiano da cidade. Além disso, as matas recompostas no parque garantiriam que os ecossistemas se desenvolvessem, recuperando algum equilíbrio natural. Apesar de desconhecido e não concluído, este projeto nos mostra alguns princípios importantes para o paisagismo urbanístico sustentável: pensar hoje o paisagismo urbano não é apenas pensar o aspecto estético, mas garantir o funcionamento ecológico deste meio. Para tanto, é necessário que esteja associado a outras iniciativas sustentáveis.

 

3 – Como tem evoluído o cenário do paisagismo urbanístico no Brasil? Quais são hoje as grandes novidades e tendências?

Desconheço tendências estilísticas. Estilo, aliás, é algo que pouco me interessa no atual momento histórico. Para mim a tendência mais importante é a que põe o paisagismo ecológico como uma potente ferramenta para tornarmos as cidades mais sustentáveis. Uma grande novidade, nesse sentido, é a associação do paisagismo à recuperação de áreas degradadas. Em Belém do Pará, o Mangal das Garças, com projeto paisagístico de Rosa Kliass, é um belo exemplo de como se criar um gradiente equilibrado entre o uso urbano do parque e o tratamento ecológico das margens do Rio Guamá, numa área outrora bastante degradada. Em São Paulo, o projeto da praça Victor Civita, do Benedito Abbud, recuperou uma antiga área contaminada e a transformou em um espaço de lazer e educação para a população. Os parques lineares em áreas de proteção permanente dos córregos urbanos também tem se mostrado uma tendência no paisagismo urbano regenerativo.

 

4 – Existe algum tipo de plano quando se fala em paisagismo urbanístico? Como se elabora um projeto de paisagismo urbanístico? Quais são os critérios/pontos que precisam ser pensados para a sua elaboração?

Qualquer projeto urbanístico consiste em um projeto multidisciplinar complexo, por isso é sempre desejável que as equipes possam ser compostas por profissionais de diversas áreas. Num projeto de parque linear em fundo de vale que associasse presença de áreas verdes, ciclovias e remoção de habitações irregulares, por exemplo, seria imprescindível a presença não apenas do paisagista, mas de urbanistas, geógrafos, engenheiros ambientais e de transportes, assistentes sociais, dentre outros. A simples escolha das espécies plantadas poderia ter grande impacto no sucesso de um projeto como este, por isso deve estar sempre associada a uma matriz interdisciplinar de necessidades.

 

5 – Como você avalia do ponto de vista da sustentabilidade o paisagismo das cidades brasileiras de uma maneira geral? O que tem sido feito de interessante e eficaz e quais os desafios que ainda precisam ser vencidos nesse setor?

As cidades brasileiras ainda são pouco sustentáveis e o principal motivo, a meu ver, é a condição social inerente ao país. As cidades crescem sem planejamento, em meios formais e informais. Diante de tantas urgências o desenvolvimento sustentável parece não ter espaço. O que mais me chama a atenção nesse sentido são as medidas corretivas, quando aplicadas. Em algumas cidades tem se associado a recuperação de córregos, territórios estratégicos, com o desenvolvimento de parques lineares. Estes parques garantem lazer à população, mas também ajudam a preservar os córregos. Muitas vezes esses parques acabam recebendo ciclovias, o que auxilia também a mobilidade local.

 

6 – Há algum tipo de legislação ou normatização com relação à aplicabilidade do paisagismo urbanístico? Se existe, como ela é aplicada? Existem alguns empecilhos/percalços na aplicação dessa legislação?

Há algumas normativas que devem ser consideradas. É preciso compreender não apenas os códigos ambientais vigentes, mas também normas de acessibilidade e desenho universal que garantam o pleno acesso da população a estes espaços. Não se pode ignorar, ainda, que os planos diretores municipais devem compreender um plano de áreas verdes para a cidade.

 

7 – Como pode ser feita a relação do paisagismo urbanístico com o paisagismo sustentável dos projetos em separado? Como se relacionam e de que forma um segmento influencia/modifica o outro?

Quando falamos de meio ambiente, muros e divisas são mero detalhe. As bacias hidrográficas não respeitam os limites municipais e estaduais, nem as fronteiras nacionais. Do mesmo modo, o comportamento das massas de ar e das populações de fauna e flora estão completamente fora de nosso controle. Se entendermos a cidade como cenário de um ecossistema urbano fica mais fácil de aceitar o fato de que está tudo interligado e que necessitamos de equilíbrio. Uma casa com telhado verde, por exemplo, possui um microclima muito agradável em seu interior, mas pouco influi na temperatura do seu bairro. Se passarmos a pensar numa cidade em que 10% ou 20% de seus imóveis possuam telhados verdes, é bastante plausível a hipótese de que o clima local como um todo pode melhorar. Arborização é a mesma coisa, deve ser feita dentro e fora do lote. É por isso que as ações devem estar sempre associadas a políticas públicas de incentivo a práticas sustentáveis. Isso já ocorre na drenagem urbana de algumas cidades: para ter a casa regular deve-se construir um pequeno poço de infiltração de águas pluviais. Estes poços, se presentes em grande parte das casas, ajudam a atenuar os efeitos que a urbanização cria sobre o fluxo dos rios durante chuvas, já que retardam a chegada da água nestes. Com isso, há grande economia e redução de impacto com a redução das obras de prevenção de enchentes, como os chamados “piscinões”. Com isso, os rios podem correr seu curso natural e ser parques ao invés de canais.

 

8– O que precisa ser ‘consertado’ para termos um adequado paisagismo urbano?

Precisamos começar a ‘consertar’ o nosso senso comum. Todo mundo reclama do calor no verão, mas poucos mantêm um quintal permeável e arborizado. Menos ainda são os que tem uma árvore plantada em sua calçada. Reclama-se das folhas, das raízes, do espaço que o tronco ocupa. Um bom projeto de arborização urbana é capaz de definir os exemplares corretos para cada situação. Um flamboyant é um belíssimo espécime, mas não dá para plantá-lo em uma calçada estreita, pois suas raízes irão interferir no calçamento. Outras espécies são mais indicadas para estes casos. Também não se pode pensar em um paisagismo urbano desconectado de seu próprio meio ambiente. Por algum motivo escolhemos ter uma infinidade de pistas ao longo do Rio Tietê, em São Paulo. Poderia ser um parque e poderia ser um rio limpo, mas, ao que tudo indica, temos outras prioridades para o espaço público da cidade.

Tenho olhado com muito interesse o tema dos ecossistemas urbanos. O meio urbano é um meio doente porque está em completo desequilíbrio. Se olharmos por uma perspectiva ecológica, podemos associar a presença da vegetação na cidade como forma de recuperar e preservar áreas. A cidade também precisa de alguns espaços intocados, espaços que propiciem a recuperação da fauna local. A diversidade de espécies, vegetais e animais, já auxiliaria em reduzir certos desequilíbrios. Não dá pra operar através da dicotomia homem-natureza. É tudo parte de uma coisa só. Já é mais do que hora de abandonarmos a ideia de que a técnica resolve tudo. Ou passamos a associar nossas ações construtivas ao meio natural a que estamos submetidos, ou passaremos, cada vez mais, a sofrer as consequências desse desequilíbrio.

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