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José Antônio – Construir e Refletir

Por Pablo Braz

Engenheiro Civil Pós-graduado em Engenharia de Segurança, José Antônio de Lucas Simon assumiu em 2014 a presidência do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Pernambuco (Sinduscon/PE). Sempre empenhado em discutir os avanços e desafios do segmento no país, José Antônio acredita que a construção civil é um dos setores que está salvando a economia brasileira, mesmo com as dificuldades constantes para atender às demandas de infraestrutura de obras públicas como estradas e pontes. Membro efetivo da Comissão de Controle Urbanístico (CCU) da Prefeitura do Recife e Vice-Presidente da Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico (Adit Brasil) para o estado de Pernambuco, o engenheiro conversou com a Revista Construir Nordeste sobre o programa Minha Casa Minha Vida, mercado imobiliário, mão de obra e sustentabilidade na construção civil e o panorama nacional do setor.

 

Como se encontra o panorama da construção civil no País e em particular na Região Nordeste? 

A construção civil é um dos setores que está salvando a economia do País. Foi o único setor da indústria, excluindo o agrobusiness, que cresceu neste último ano. A realidade é essa: a construção vem sendo, mas em menor proporção, junto com o setor de serviços, que está mantendo o PIB do Brasil ainda positivo, embora ínfimo. Nesse cenário o Nordeste se configura como uma região carente de investimentos em obras estruturadoras, especialmente obras de investimentos do governo federal. Mas existem obras importantes no Nordeste que transladam cidades, como a Transnordestina e obras estruturadoras do canal do sertão, além das ferrovias, interligações dos portos e refinaria. Este ano, porém, não houve, por questões políticas e efetiva falta de dinheiro do Governo Federal, uma intensidade dos investimentos na Região. É preciso redescobrir outros focos para continuar esse investimento. Não teve, por exemplo, uma retomada com força das obras da Adutora do Oeste e das obras estruturadoras do sertão para ocupar a mão de obra e muito menos teve o início do Arco Metropolitano que seria outra opção, tanto de expansão econômica como de empregabilidade. Hoje, uma grande questão é como manter a perenidade em termos de investimento e alocação de mão de obra para não se ter o que está acontecendo hoje com as empresas que trabalham com o governo municipal, estadual e federal: emprega, faz um pedaço, falta dinheiro, desemprega, volta a ter dinheiro, emprega novamente. Essa conta no final não vai fechar.

 

Como o Sinduscon/PE tem atuado em prol da indústria da construção civil no Estado? O que tem sido feito de atividade nesse sentido?

O sindicato busca sempre tomar conhecimento dos projetos, tentando aperfeiçoá-los na questão urbana, em particular os empreendimentos estruturadores, tentando fazer com que os projetos saiam do papel. E não se pode pensar apenas no investimento do empresário. O Sinduscon também investe em capacitação profissional, a exemplo da escola do Senai, que é um grande parceiro no treinamento de mão de obra dos pedreiros, carpinteiros, eletricistas e encanadores. Qualificar essa mão de obra é uma coisa que a gente tem que ter em mente. O analfabetismo, por exemplo, foi praticamente erradicado do setor. Hoje, até as funções mais primárias do setor, qualquer colaborador e funcionário da empresa precisam saber ler e escrever por conta de normas, procedimentos e relatórios para preencher.

Aqui em Pernambuco mais de 90% das empresas são certificadas de alguma forma. Foi um trabalho que o Sinduscon fez anteriormente, e hoje isso rende fruto na capacitação profissional. A gente tenta fazer com o que o colaborador do setor esteja a cada dia mais qualificado e motivado a crescer dentro do setor. Está se invertendo uma lógica que no passado era muito cruel. Ou seja, o trabalhador que era pedreiro na construção não queria que o filho trabalhasse também na construção civil porque era um ambiente inóspito e perigoso. Atualmente, o perfil do canteiro de obras mudou. Antes, para entrar num canteiro você tinha que colocar uma bota, uma vestimenta mais rude, pois não se podia andar direito nele. A legislação não permite mais isso. O próprio layout do canteiro melhorou, os processos construtivos ficaram mais limpos, a questão ambiental, em especial a dos resíduos, está fortemente incorporada. Foi uma evolução enorme nestes últimos 20 anos e que tem que ser perenizada. E não é só a questão do investimento financeiro do governo. O setor também investiu muito e hoje se encontra pronto para responder.

 

Você acha que ainda pode-se falar em falta de mão de obra qualificada como sendo um dos grandes gargalos do setor?

Na verdade, a mão de obra hoje tem em toda a sua base um nível de qualificação. O que acontece é que, quando se tem uma mão de obra qualificada, passa-se a exigir mais dela. Se você tiver um analfabeto, você não vai exigir nada dele. Quando ele é alfabetizado e começa a ler, você exige que ele leia uma linha. Quando ele lê uma, você exige que ele leia duas, e daqui a pouco você quer que ele leia a bíblia. Uma coisa precisa ser dita na construção: a mão de obra qualificou-se, mas não teve um aumento de produtividade. No processo construtivo, qualquer racionalização incide no aumento de produtividade. Então, hoje, nós temos uma mão de obra mais qualificada, mas cada vez menos produtiva.

Em termos de qualificação profissional, está evoluindo. Por exemplo, o país desenvolvido e o país em desenvolvimento. Quando o desenvolvimento chega naquele patamar, o desenvolvido já subiu, mas ele continua em desenvolvimento. No caso da mão de obra, isso também existe. E isso vai crescer, porque a informatização chega e, consequentemente, outros preceitos de qualificação. Antigamente, falar em um computador numa obra era uma coisa absurda, pois poucos escritórios de grandes corporações o utilizavam. Hoje se tem tudo na palma da mão, literalmente com sistema de gerenciamento de obra feito por meio do smartphone. Do mesmo jeito que se tinha um controle num caderno pautado de escola, tem-se com um smartphone. E aí a diferença não é a qualificação do profissional, mas, sim, o nível de qualificação que ele pode trabalhar. O que me preocupa mais hoje não é a qualificação, mas a produtividade. Perde-se quando se está qualificando e não se está aumentando a produtividade, pois tudo que se melhora na qualificação, em tese, tem que obrigatoriamente ter um aumento na produtividade. O que se vê é que esse aumento é decorrente da melhora tecnológica dos equipamentos, e não em função da mão de obra.

 

E como é que poderia ser melhorado esse quadro?

A ideia é que essa qualificação seja voltada não mais para a instrução e o uso, e sim ao melhor uso de equipamento. O profissional precisa aprender como melhor usar os equipamentos para melhorar a produtividade dele, utilizando o benefício da evolução tecnológica em benefício próprio. É isso que estamos tentando colocar nas escolas do Senai, na qualificação da mão de obra, no próprio sindicato dos trabalhadores.

 

Como você avalia o impacto do programa ‘Minha Casa Minha Vida’ para o setor?

Como programa habitacional, é extremamente necessário. Mas é preciso evoluir em alguns aspectos. Um deles é o déficit habitacional, que é sempre crescente, principalmente na população de baixa renda. Na faixa de 0 a 3 salários mínimos, há um mercado extremamente complexo, pois não se consegue, como iniciativa privada, estruturar empreendimentos. Para essa faixa tem que ter subsídio, e esse subsídio precisa estar claramente colocado, no qual o 0 a 3 tem uma taxa de juros que é metade da faixa de 6 a 10, ou seja, um nicho subsidia o outro. Um precisa e não tem como pagar. O outro precisa, mas tem como pagar. O gargalo é que o 0 a 3, por ser subsidiado, é financiado pelo orçamento da união, encontrando, assim, dificuldades de repasse. O programa tem que sofrer uma reestruturação da engenharia financeira, por que a estruturação do atendimento do necessitado existe e está bem feita.

As grandes empresas em geral não entram no Minha Casa Minha Vida porque é um mercado extremamente diluído. Por isso que a Câmara Brasileira da Construção Civil (CBIC) foi quem formatou o programa junto com o governo, porque ele atende à realidade da população, mas também à parte do mercado. Não se está discutindo o déficit habitacional de dois milhões de casas numa cidade, e sim o déficit habitacional de 500 a 100 mil casas. Essa é a grande sacada do programa, que ele foi feito para pequenas e médias empresas, inclusive para o sistema de gestão e controle.

Quando se discute o Minha Casa Minha Vida, é bom ressaltar que é um programa extremamente necessário e interessante. Ninguém imaginou que, quando ele foi lançado lá atrás pelo ex-presidente Lula, o setor estava pronto para fazer um milhão de moradias, que foi a primeira meta do programa. Naquela época, o setor não correspondeu com esse valor, mas chegou a 790 mil. Hoje nós estamos falando em três milhões, três milhões e meio de moradias. E atualmente sabe-se que o setor está preparado para isso. O setor da construção pode ainda ser visto por alguns como à margem da indústria, e não é. Toda a nossa cadeia produtiva, excetuando a parte de mão de obra, já é industrializada. Não tem mais ‘artesanato’ na construção. Tudo que se coloca no projeto já é cadeia produtiva da indústria.

 

E a relação da construção civil com o mercado imobiliário? Como você enxerga?

São mercados que se complementam. Primeiro a diferença está no cliente. Enquanto o mercado imobiliário trabalha com o consumidor final, as construtoras trabalham geralmente com o cliente ‘governo’. Intrinsicamente, em termos de processo, tem-se claramente os nichos de mercados definidos, não havendo choque de interesse. Mas sempre tem a questão: Primeiro eu tenho que colocar o prédio ou a praça? É uma discussão muito mais de tese do que prática. Os produtos dos dois têm tempos diferentes, prazos diferentes. E existe também em cada estado a Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), que trata especialmente do mercado imobiliário, o que já facilita muito para o Sinduscon no trato das obras públicas. O setor da construção civil trabalha com o mercado imobiliário mais no sentido da troca de informações do dia a dia, em uma relação mais harmônica e menos isolada.

 

Em se tratando de sustentabilidade, é possível ter uma aplicação real e rápida dos parâmetros sustentáveis na construção civil?

Claro que tem. Não adianta convencer de que sustentabilidade é só teoria, se ele não vê resultado prático na hora. Pra fazer sustentabilidade é preciso ter dinheiro. Não adianta discutir sustentabilidade sem discutir economicidade. Quando se fala com o empresário, a primeira coisa que tem que se convencer é o econômico. E estamos falando não em mais barato, mas, sim, em mais econômico. Porque que a maioria dos shoppings centers são sustentáveis? Tem selo, certificação? E os prédios residenciais em sua maioria ainda não têm? Tem haver com economicidade. Ser sustentável ainda é mais caro.

O iceberg é o melhor desenho que caracteriza a sustentabilidade. A construção de qualquer empreendimento é a ponta do iceberg. O uso e a manutenção é os 80, 90% que estão embaixo. O shopping “usa” a sustentabilidade porque tem um dono que tem que manter aquilo funcionando para duzentos, trezentos lojistas. Qualquer economicidade no uso e na manutenção para ele é lucro. Já no prédio residencial a manutenção é por conta de cada um. Ou eu agrego no preço do seu imóvel ou você vai ter que entender que terá que pagar mais caro para ter uma economia ao longo do uso. É preciso que se tenha o preceito de economicidade incluído no produto, senão eu não consigo implantar. Tudo é tecnologia, e isso é mais caro.

Na sede do Sinduscon/PE, tem, inclusive, uma casa mostruário construída com todos os preceitos sustentáveis possíveis de se aplicar de forma rápida, prática e econômica. Ou seja, vamos parar de discutir a sustentabilidade como um preceito conceitual, e sim como algo que se pode comprar nos armazéns de construção, lojas especializadas e na indústria de fornecimento imediato. Não adianta pensar na sustentabilidade como um conceito que eu tenho na mão, mas que não dá para comprar. Uma coisa é querer que você aceite o conceito. Uma vez aceito, e aí? Eu compro onde? Onde vende? O cliente quer morar logo no empreendimento. É necessário colocar na prática o que se prega na teoria.

 

Quais são, então, os maiores desafios enfrentados pelo setor da construção civil?

O grande desafio da construção civil sempre é atender às necessidades da população. Nesse ponto, não me refiro a mercado imobiliário. Falta muita estrada, falta muita ponte, falta muita logística nesse país, e que só pode ser resolvida pela construção civil. Não se pode admitir que um país dessa magnitude não tenha uma malha ferroviária completamente interligada, que os estados e as capitais não sejam interligados com a malha rodoviária e auxiliados por uma ferroviária, incluindo metrô de superfície e metrô subterrâneo. Há uma carência enorme de obras de infraestrutura. O setor teria que construir 36 horas por dia para satisfazer essa carência num prazo de 20 anos. E não se pode construir grandes obras de uso público quando não se tem infraestrutura para ligá-las.

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