home Blog, Entrevistas, opinião Luiz Priori Jr. – Renovação Urbana e Desenvolvimento Sustentável

Luiz Priori Jr. – Renovação Urbana e Desenvolvimento Sustentável

Luiz Priori Jr. é doutor em engenharia civil com pós-doutorado em resiliência urbana e mudanças climáticas

A Conferência Mundial das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (United Nations Conference on Climate Change) – COP21, ocorrida no mês de dezembro em Paris, conseguiu reunir 150 chefes de Estado, na capital francesa, que aprovaram o primeiro acordo global de enfrentamento das mudanças climáticas, contando com a adesão de 195 países-membros da Organização das Nações Unidas. Esse acordo aprovado em Paris tem como objetivo manter o aquecimento global em até 1,5 grau Celsius, até o final do século – um aumento de até 2 graus Celsius, na temperatura média da Terra, é considerado como minimamente seguro pelos cientistas.

O litígio, porém, não termina com a assinatura de um acordo de cooperação internacional, mas com a viabilização de ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas nos países pobres e em desenvolvimento. Para que isso aconteça é fundamental que esse acordo contemple diretrizes para solucionar a polêmica questão do financiamento dessas ações.

“A pobreza é a pior forma de poluição”, profetizou o embaixador brasileiro Miguel Ozório de Almeida na primeira conferência ambiental das Nações Unidas, em 1972, em Estocolmo. Na época, essa afirmação significava que a prioridade dos países pobres não deveria ser a proteção ambiental, mas, o desenvolvimento. Hoje, sabe-se que um não poderá ser atingido desconsiderando-se o outro: é o princípio do “Desenvolvimento Sustentável”.

A percepção ambiental (ou ecológica) no contexto da Sustentabilidade permanece, ainda, como sendo a mais forte, no entanto, para trilhar o caminho do desenvolvimento é necessário que seja respeitado o tripé da sustentabilidade (Triple Botton Line), composto pelas dimensões: ambiental, social e econômica. Ou seja, sem uma economia forte um país não se sustenta, como afirmou o Sr. Ozório de Almeida.

O século XXI caracteriza-se pela explosão populacional nos centros urbanos – que já comportam mais da metade da população do planeta –, resultando no aumento das metrópoles e no número de megacidades (aglomerados urbanos com mais de dez milhões de habitantes). Protagonistas nas projeções de desenvolvimento, esses núcleos, concentram as preocupações com a sustentabilidade urbana, que devem ser apoiadas em ações que sustentem a viabilidade econômica de centros tão densamente povoados.

A atividade turística é considerada “uma indústria sem chaminés”, afirmação que não é inteiramente verdadeira quando, por exemplo, analisamos as emissões geradas pelos deslocamentos; em termos locais, porém, pode ser considerada válida. Além disso, trata-se de uma atividade que pode se tornar a base da sustentabilidade econômica de centros urbanos localizados em posições geograficamente privilegiadas, como é o caso da Região Metropolitana do Recife.

Para tal, faz-se necessário exacerbar, melhorar e incrementar, não apenas os potenciais naturais, mas os culturais e sociais, de forma a atrair mais visitantes. Essa afirmação pode ser demonstrada em dois exemplos (bem sucedidos) de intervenções urbanas que projetaram as cidades espanholas de Valência e Bilbao entre os grandes centros de atração turística internacional.

A cidade de Valência foi, durante o século XV, o mais importante porto do sul da Europa. Sinais da opulência dessa época ainda podem ser vislumbrados na parte histórica da cidade. Séculos depois, mesmo perdendo esse posto, continuou sendo um importante porto mediterrâneo da Espanha. Essa cidade que sofreu transformações urbanas profundas, como a transferência do curso do rio Túria para fora do seu perímetro urbano.

Um rio famoso por suas cheias, especialmente a de 14 de outubro de 1957, conhecida como a grande cheia de Valência, quando as águas do Túria, com uma vazão de 3.700 m³/s, inundaram grande parte da cidade, provocando uma terrível catástrofe. Esse fato deu origem à criação de um projeto para desviar o leito do rio, com a finalidade de evitar futuras inundações e prover mais espaço para construir novas infraestruturas para o crescimento da cidade. Assim, o antigo vale foi transformado em um espaço de lazer e cultura, batizado de “Jardins do Túria”, que consiste de grandes áreas ajardinadas, instalações desportivas, salas de exposições, auditórios e a “Cidade das Artes e Ciências”.

Esse ambicioso conceito de renovação urbana teve como protagonista o projeto denominado de “Cidade das Artes e Ciências”, um complexo de museus e teatros que veio preencher parte dos vazios e urbanizar uma área pouco valorizada e que se transformou, não apenas no novo símbolo de dinamismo e desenvolvimento da cidade, mas numa das principais atrações turísticas de toda a Espanha. Colocando novamente a cidade de Valencia na rota turística do país e contribuindo economicamente para a sustentabilidade urbana desse aglomerado milenar.

O caso de Bilbao é ainda mais impressionante. Datada aproximadamente do século XII, seu centro histórico possui ruas medievais, igrejas góticas, edifícios e praças neoclássicos, entre outros elementos de períodos diversos, entretanto, a cidade surpreende o visitante pela renovação urbana ocorrida principalmente ao longo das duas últimas décadas. Importante centro da indústria naval, situada na costa atlântica do norte da Espanha, Bilbao foi fortemente afetada pela crise industrial dos anos 1970, quando a redução do seu parque industrial extinguiu 80.000 de empregos em sua área metropolitana.

Como efeito do processo de desindustrialização pelo qual passou após a década de 1970, no início da década de 1980, para combater os efeitos da crise econômica – que agravou a deterioração urbana e ambiental – e recuperar zonas industriais abandonadas e antigos bairros degradados, a sociedade, ou seja, lideranças, instituições e cidadãos aprovaram o Plano Estratégico de Revitalização de Bilbao com o objetivo de promover o turismo e serviços da cidade; integrando de forma criativa cultura e lazer, voltado para a qualidade de vida.

A renovação em Bilbao é considerada única no mundo, porque poucas urbes têm espaços disponíveis no que pode ser considerado o centro da cidade, o que permitiu a construção de obras como o Museu Guggenheim e o Palácio Euskalduna, que mudaram radicalmente o perfil urbano da cidade. Além disso, pouquíssimos projetos conseguiram ter tantos arquitetos de renome mundial participando de um processo de renovação, entre eles Frank Gehry, Norman Foster, Robert Stern, Federico Soriano, Ricardo Legorreta, Rafael Moneo, Arata Isozaki e Santiago Calatrava. Hoje Bilbao é conhecida no exterior como um dos principais pontos de referência em arquitetura moderna e renovação urbana.

A realização de intervenções dessa magnitude necessita, não apenas, da ação do poder público, mas, do financiamento privado e da participação de toda a sociedade. São inúmeras as propostas de renovação urbana para as cidades brasileiras. Infelizmente, a grande maioria nunca sairá da fase de projeto e, muitas, se perpetuarão como obras inacabadas, devido, principalmente, à falta de planejamento público e à pouca participação da população das cidades brasileiras, caracterizada por uma diferenciação social muito complexa.

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